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Quintalzinho


Cornetinhas Disconexas

 

Eu sempre tive muita dificuldade com jazz. Quando tinha meus 18 anos peguei uma coleção de vinis emprestada e ficava lá, lutando contra o Art Blakey que espancava sua bateria e Dizzy Gillespie com seu trompete e suas bochechas. Só consegui gostar mesmo do Louis Armstrong, e mesmo assim das mais fáceis e próximas do blues.

 

Mas depois dos 30 anos, é impressionante: as cornetinhas começam a fazer sentido. Principalmente se você já ouviu bastante bossa nova, fica mais fácil. As cornetinhas, de disconexas já passam à categoria de dissonantes, e logo depois você começa a curtir os improvisos.

 

 Mas teve um ponto de virada bem claro pra mim. Eu nunca tinha visto um show de jazz de verdade, com algum cara importante mesmo na história. E ano passado, no TIM Festival, eu vi o Wayne Shorter ao vivo. E fiquei muito impressionado. O cara já tem seus setenta anos e fez um show intensíssimo, de tirar o fôlego, hipnotizante, tocando seu sax como se só aquele momento existisse. E a banda que o acompanhava era infernal, piano bateria e contrabaixo, todos arrebentando.

 

A partir daí ficou mais fácil pra mim e comecei a ouvir com cuidado Miles, Coltrane, Lee Morgan,  Thelonious Monk. Ainda não me arrisquei de novo com Gillespie e Blakey, mas chego lá. E esse ano tem Herbie Hancock no Tim Festival. Mas esse é legal até para quem não gosta ainda das cornetinhas, faz um som bem funkeado, principalmente na fase do "Head Hunters". Vejamos.



Escrito por BSBS às 01h09
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Choros e Alegrias

 

Morreu no último domingo o maestro Moacir Santos. Pouco conhecido no Brasil, pois passou os últimos 40 anos nos EUA, onde gravou discos pelo prestigiado selo de jazz Blue Note. No Brasil, lançou apenas o disco “Coisas”, de 1965 , com dez composições: Coisa número 1, Coisa número 2, Coisa número 3...

 

Conhecemos Moacir Santos no final do ano passado, num show em que ele se apresentou no Auditório Ibirapuera. Um senhor de 80 anos, que já não podia tocar seu sax desde que sofreu um derrame, há uns anos atrás. Mas ele estava muito contente de ter suas canções executadas ao vivo por uma “big band” liderada por Mário Adnet e Zé Nogueira, a Banda Ouro Negro.

 

Ele não tocava, mas subiu ao palco, cantou uma ou duas músicas e escutou a belíssima execução de Coisa no 6, claramente emocionado. Nós conversamos com ele no camarim, antes do show. Ele falou do disco que estava sendo lançado, com canções que ele compôs ainda na juventude e recuperou agora: “São choros, chorinhos, mas não são tristes. Então eu pensei, pensei e de repente veio: choros e alegria – é isso, vai ser o nome do disco, Choros e Alegrias”.

 

Pra quem não conhece, fica aí a sugestão. E pra quem ainda duvida da importância do maestro, dê uma olhada na letra de Samba da Benção, de Vinícius de Moraes. Vai encontrar o seguinte verso: "À benção, maestro Moacir Santos / Tu que não és um só, és tantos / como este meu Brasil de todos os santos".



Escrito por BSBS às 18h46
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Ordem dos Fatores

 

Quando fazem uma adaptação pro cinema de um livro que você gosta muito, é decepção na certa. Já assistimos com um pé atrás, identificando todos os cortes no enredo, as inevitáveis simplificações, a caracterização rasa dos personagens e a melhor hipótese possível é: o filme é bom, mas o livro é muito melhor.

 

Mas aconteceu comigo a experiência inversa. Acabei de ler Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, que já foi para as telas pelas mãos de Luiz Fernando Carvalho, num dos melhores filmes brasileiros desde a “retomada” da década de 90.

 

A experiência do filme “Lavoura Arcaica” é especial em alguns sentidos. Primeiro, não houve roteirização para a filmagem, esta foi feita a partir do próprio livro. Segundo, houve uma preparação de atores e equipe muito especial. Todos ficaram um mês, antes das filmagens, vivendo na fazenda onde se passa o filme, trabalhando nas mesmas funções dos personagens, improvisando cenas a partir dos textos do livro.

 

Lendo o livro, foi surpreendente pra mim a caracterização imagética proposta no cinema. Walter Carvalho, o fotógrafo, parte sim de algumas imagens sugeridas no livro, como a dos pés se afundando na terra úmida, mas as ultrapassa muito e propõe um certo lirismo na construção dos personagens que é até mesmo antagônica com a angústia onipresente de Raduan Nassar.

 

O ritmo do filme também não é diretamente originado no livro, que trabalha o tempo todo com fluxo ininterrupto de pensamento e palavras dos personagens. Essa característica pode ser sentida em alguns diálogos, mas não nos longos planos contemplativos do filme.

 

No fim, são duas obras paralelas, que se completam e que trazem matizes diferentes de interpretação para os personagens e para a história. O que foi engraçado é que, tendo visto o filme, quando eu pegava o livro pra ler sempre me perguntava: o quê será que o Selton Mello vai fazer agora? Ou seja, tenho que admitir, o filme pautou a minha leitura do livro. Mas ainda não tenho certeza se a ordem dos fatores alterou o resultado.



Escrito por BSBS às 02h58
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Todo mundo tem o seus rituais particulares, mesmo que não os admita. De minha parte, existe uma coisa completamente indispensável para inaugurar o meu dia: um cafezão!

Independente da hora em que eu fui dormir ou da hora em que acordei, eu não sou ninguém antes dele.

Agora no inverno, este hábito tomou lugar entre os principais prazeres do meu dia. Tão maravilhoso quanto tomar água de coco gelada depois da ginástica e quase tão bom quanto enfiar debaixo do edredon para assistir filme à noite.

Depois que o café está pronto, coloco numa caneca bem grande e sento na mesa da cozinha para beber devagarzinho. A mesa de pedra é gelada mas eu não me importo, já que o café está quentíssimo. É até um contraste legal. Gosto de ficar curtindo o bafo úmido, quente e cheiroso que sai da caneca.

Tenho que confessar que não tenho certeza se neste momento eu já estou completamente acordada. Acho que é um momento de transição, em que meu nível de consciência geralmente está oscilando entre Netuno e Plutão. Várias pistas me levam a crer nisto:

1) Enquanto tomo café, faço um planejamento fantástico de todo o meu dia, o qual nunca consigo lembrar poucas horas depois.
2) Invariavelmente, influenciada por uma lenda sei lá de onde, fico tentando adivinhar meu futuro através das manchas que o café vai deixando na caneca. Tiro conclusões completamente sem sentido e vou tentando remediá-las diluindo um pouco de Molico para mudar a cor do café.
3)Minhas camisolas possuem sempre alguma mancha de café.

Portanto, nunca ouse me interromper durante momento tão sagrado, tão crucial. Se tentar conversar comigo, corre o risco de receber um “anhan” distante ou no máximo uma resposta completamente sem sentido. E aviso: se sua insistência for maior que seu medo, será alvo inevitável de um ataque de ira e loucura.


Escrito por BSBS às 01h38
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Contrate os Hell´s Angels Para Sua Segurança

Tava vendo o documentário Gimme Shelter, de 1970, sobre a turnê que os Rolling Stones fizeram nos EUA durante 1969.  O filme começa com uma excelente versão de “Jumpin´ Jack Flash” e tudo leva a crer que é mais um documentário de rock. Todo aquele clima flower power, pessoas nuas, alguns muito loucos e tal.

 

Mas aí corta-se pra moviola, onde os Stones estão assistindo o material gravado e vendo os primeiros esboços da montagem do filme. Entre os trechos de shows, o diretor mostra para a banda uma gravação de um programa de rádio. Ficamos sabendo que esse documentário foi feito logo depois do trágico show de Altamont, onde nasceram 4 pessoas e morreram outras quatro. Nesse show, os contratados para fazer a segurança foram... eles mesmos, os Hell´s Angels, trupe de motoqueiros conhecidos mundialmente - talvez a partir desse episódio - por sua tolerância, gentileza e delicadeza.

 

Um trecho do depoimento de um Hell´s Angel para o referido programa de rádio:  Eu ia ficar ali sentado, na beirada do palco, e só isso. Mas aí os caras começaram a mexer nas nossas motos. E ninguém vai chutar minha moto. Quando você vê alguém chutando a coisa que você mais gosta no mundo, você sabe que tem que pegá-los. E, quer saber? Nós pegamos eles..   

 

O restante do documentário concentra-se no show de Altamont, que ia bem até que os Stones começaram a tocar Simpathy for the Devil, quando o pau começou a quebrar. Por diversas vezes Mick Jagger interrompe o show, tenta acalmar as pessoas e vai tudo ficando mais tenso. A queda de energia é brutal na banda, eles tentam tocar outras músicas mas as interrompem no meio, Mick Jagger chama médicos, pede calma, tenta cantar outra música mas fica olhando o que acontece no  público ao invés de dançar, esquece-se de cantar alguns trechos das letras.

 

O filme termina com os Stones, na Moviola, vendo uma seqüência que mostra os Angels assassinando uma pessoa a pontapés e facadas no meio do público. Depois há ainda algumas cenas de pessoas chorando e um corpo sendo preparado para transporte. Os músicos perplexos não conseguem nem comentar a cena, assistem a tudo, pedem pro diretor voltar o rolo, assistem de novo, vêem uma arma na mão de uma pessoa no público e um Angel atacando-o com uma faca. It´s Horrible, diz Mick Jagger.

 

O filme é meio um documento, talvez o mais incisivo possível, do fim de toda uma geração, da morte do sonho dos anos 60, Paz e Amor, Flower Power, Hippies, tudo isso. A barra pesou. Nos créditos entra “Gimme Shelter” , sobre imagens das pessoas deixando o local do show:  Yes, the storm is threatening my very life today / If I don´t get some shelter, I´m going to fade away / War, children, it´s just a shot away , it´s just a shot away / Rape, murder , it´s just a shot away...

 

Gimme Shelter – 1970

Dir: Albert Maysles, David Maysles, Charlotte Zwerin



Escrito por BSBS às 19h37
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Godard Estava Errado?

 

Muitas vezes sou acusado de fazer pose, de gostar de determinadas coisas, principalmente em cinema e literatura, só porquê é “chique” gostar, pra dar uma de entendido. E, na verdade, tenho uma relação muito visceral com obras de arte. Simplesmente não conseguiria sustentar uma posição falsa frente a um autor só pra causar certa impressão ou manter uma aparência.

 

Mas tem uma coisa que eu faço, e a partir daqui saio da defesa pro ataque. Quando vejo um filme ou leio um livro, recomendado pela crítica, considerado importante na história, com o qual não consigo me relacionar, não tenho como primeira atitude desconsiderar a obra. Coloco-me em dúvida também.

 

Considero uma soberba incompreensível simplesmente desprezar um autor ou uma obra que tem um reconhecimento mundial apenas porque eu não gostei na primeira vez que tentei. Já tentei ler Ulisses umas duas vezes, não consegui. Vamos queimar o Ulisses? É lixo? Não vale nada?

 

Muitas obras necessitam de background mesmo, você tem que conhecer muita literatura para ler um Guimarães Rosa ou um Borges, tem que conhecer cinema a fundo pra ver um Godard ou mesmo um Glauber Rocha, um Sganzerla. E tem outro tipo de obra que exige, além disso, uma boa vontade, uma atitude de decifrar a linguagem, de buscar os significados e de entender a maneira como estes estão sendo transmitidos.

 

Mas por quê? Por quê ler os clássicos se podemos ficar nos Best Sellers? Por quê ver cinema experimental se podemos ficar com as receitas de bolo de Hollywood? Porque é recompensante. Porque podemos encontrar muitas idéias e beleza escondidas nessas obras “difíceis”. Mas pra isso é preciso paciência. E humildade.



Escrito por BSBS às 13h25
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Thomas Mann

Um autor que passei a conhecer melhor neste ano foi Thomas Mann. Antes disso, tinha lido apenas o ótimo "Morte em Veneza", motivado pelo filme, também muito bom, do Visconti. Mas neste ano enfrentei três grandes livros, daqueles que ficam em pé sem apoio: A Montanha Mágica, Confissões do Impostor Felix Krull e Doutor Fausto.

Quando se ouve falar de Mann, o primeiro livro citado é A Montanha Mágica, considerado seu melhor trabalho e um dos grandes livros já escritos. E o livro realmente é impressionante. Conta a história de Hans Castorp, que vai visitar um primo internado numa estação de tratamento de tuberculose, numa montanha altíssima, na Suíça, próximo a Davos. Acaba ficando doente e, de hóspede, passa a paciente, vivendo vários anos na clínica. Lá convive com representantes de linhas de pensamento em vigência na Europa daquele tempo e representantes étnicos de várias partes: Russos, Alemães, Italianos, etc. Há um grande debate entre um italiano humanista e um Jesuíta do qual Hans aos poucos vai se inteirando e começando a dar suas opiniões. Também na montanha mágica conhece o amor, a morte e envolve-se até com rituais místicos. Uma impressionante experiência que modifica totalmente Castorp, que é outra pessoa quando sai de lá e acaba encontrando outro mundo do lado de fora, numa europa tomada por guerras e sofrimento.

Feliz Krull é um livro mais leve, uma análise de um personagem que pratica uma espécie de escalada social, usando de sua simpatia e beleza para conquistar as pessoas em seu redor. Felix não segue as regras, subverte a ordem social e acaba por expor um certo vazio nas relações sociais que se estabelecem. Um livro bem mais fácil de ler, porém bem menos recompensante. 

Finalmente, Doutor Fausto. Um livro bem complicado, que trata da vida de um compositor de música erudita que vende a alma ao diabo. O preço é tempo para concluir sua obra: 24 anos. E, além de ter a alma do compositor, o Diabo o impede , durante a vida terrena, de amar. É um livro difícil de ler, por exemplo, por tratar bem detalhadamente de técnicas de composição, teoria musical pesada mesmo. Toda a primeira parte do livro é o caminho do compositor Adrian até chegar a uma técnica original, diferente de tudo que foi feito anten na música, que é o dodecafonismo , tomado emprestado de Schoenberg. Então, se você não tem muito conhecimento sobre música, fica difícil de acompanhar. Mas o livro também aprofunda-se bastante em teologia e faz todo um paralelo da vida de Adrian com o momento em que a história vai sendo narrada, depois da morte do compositor: ascenção e queda do nazismo na Alemanha. Há dois momentos especialmente fortes, que é o longo diálogo de Adrian e o diabo, que parece ocorrer num sonho e a cena em que reúne os amigos para mostrar sua composição final, quando os 24 anos combinados estão para se esgotar. De arrepiar.

Então, pela ordem dos que mais gostei: A Montanha Mágica, Doutor Fausto, Morte em Veneza, Confissões do Impostor Felix Krull.



Escrito por BSBS às 14h42
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O Efeito Neutrox


No dia a dia, meu sentido menos aguçado é o olfato. Não consigo diferenciar muito os cheiros, a não ser em casos extremos, como por exemplo: alguém esqueceu o gás ligado; a geladeira está entupida de mexericas; o vidro de perfume vazou da mala; alguém resolveu colocar fogo na casa da frente...

Porém, no que se refere ao passado, a coisa é diferente. Um dia, enquanto percorria os olhos pelas prateleiras de uma farmácia, algo me chamou a atenção. Lá estava ele, esquecido, sozinho, porém com toda a sua dignidade: um vidro de Neutrox! Estranhei quando vi, já que sabia sobre versões novas do produto, com embalagens diferentes, que não me diziam nada. Mas em pé, no meio da prateleira do meio, estava ele, redondinho e alto, com a tampa vermelha, tal qual ele sempre foi durante toda a minha infância. Fiquei tão surpresa que não resisti: peguei a embalagem, abri e levei ao nariz. Sim, era ele!

Senti aquele cheiro e instantaneamente lembrei exatamente de tudo. Da sensação de morar numa casa com piscina no interior, brincar na piscina, estudar na piscina, machucar na piscina, chorar na piscina, dormir na piscina, comer na piscina, contar segredos na piscina, tomar chuva na piscina, etc, etc, etc... e depois... tchan tchan tchan tchan... tomar banho e passar Neutrox no cabelo!

E não é exagero dizer que não foram só lembranças: enquanto cheirava o Neutrox, aquela sensação voltou com tanta força que é como se ela nunca tivesse ido embora. Fiquei paralizada no meio da farmácia, vivendo em outra dimensão. E este meu estado nostálgico e catatônico ganhou o célebre apelido de “Efeito Neutrox”.

O Efeito Neutrox tem um poder arrebatador e pode se aplicar a qualquer outro cheiro que teve muita importância para mim. Sentir um cheiro do passado é muito diferente de ver uma foto, por exemplo. Quando olho para a foto, penso: “Olha como eu era antes!” Já no caso do olfato, eu não sou uma observadora de fora. Eu vivencio tudo de novo. O Efeito Neutrox é a máquina do tempo.


Escrito por BSBS às 12h41
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Tem uma coisa que eu morro de inveja mesmo: toda vez que eu vejo em filmes ou livros alguém que faz o papel do “escritor de cartas” de uma comunidade (como por ex no “Central do Brasil”), fico pensando: deve ser muito legal.

Outro dia, fiquei sabendo que um amigo escreveu uma carta de pedido de casamento encomendada por um amigo dele, para que este último a enviasse à sua namorada.. A carta ficou tão bonita que ele acabou enviando-a também para sua própria namorada!

Apesar desta história legal, o que me encanta neste ofício, na verdade, é o fato de estar participando de uma vida que não é sua, apropriando-se da fala daquelas pessoas. Corresponde a escrever roteiros, só que com efeitos na vida real. E, geralmente, quando uma pessoa se dispõe a enviar uma carta para outra, trata-se de um assunto importante.

Deve ser uma delícia ficar imaginando os efeitos que uma determinada carta causará, com que emoção ela será recebida. E, sobretudo, deve ser muito legal pensar em coisas intrigantes de se colocar na carta para causar alguns estranhamentos ou criar novos pontos de vista. Sem dúvida, quem exerce a função do “escritor de carta” tem um poder em suas mãos.

Uma carta para admitir uma mentira, por exemplo, fica geralmente muito maior do que a própria mentira. Uma carta assim soa como colocar uma moldura na mentira e pendurar na parede. E para explicar a mentira, nascem varias outra mentiras…

Aurora querida: Estamos há muito tempo sem nos falar, mas isso não significa que me esqueci de você. Já estou acostumando com esta cidade, que é bem maior e muito mais bonita do que Unhugubunhu. Eu lhe prometo: assim que der, vou aí te buscar. E promessa, para mim, é dívida, você sabe disso. Presta atenção, amiga, eu lhe considero uma irmã, uma irmã gêmea até, todo mundo diz que somos iguaizinhas. Mas tem uma coisa que quero lhe contar. Sabe aquele dia, que você tinha organizado a despedida? Eu não fui, mas não foi porque eu estava doente. Eu não fui porque eu estava muito triste, e não conseguiria me despedir de você! Tanto não estava doente que saí para dar uma volta, e acabei encontrando seu namorado, ele te contou?

Escrito por BSBS às 01h50
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idéias que não viraram filme

Às vezes surgem idéias que insistimos em guardar, mas nunca chegamos a desenvolvê-las em forma de roteiro. Da parte cheia de teias de aranhas da nossa “pasta de idéias”, tiramos essa aí:

Jurada de morte pela gangue rival, Jacira rouba o primeiro carro que vê pela frente durante uma fuga. Só quando ela está bem longe percebe que roubou um carro de uma funerária. Mas ela nem liga e continua seu caminho, já pegando estrada rumo a uma cidade vizinha. A única coisa que a deixa um pouco intrigada é a presença de um caixão na carroceria. Bem, mas pode até ser vendido por uns bons trocados, então tudo bem.

No meio da estrada, um homem faz-lhe sinal pedindo carona. Ele tem cara de não ter carteira recheada pra roubar, mas mesmo assim ela para o carro, já que ele é atraente e serve pra ser estuprado. Jacinto, cambaleante, entra no carro, e só então a mulher percebe que ele está passando mal. Ele revela-lhe: O câncer tomou todo o meu pulmão, estou com princípio de enfarto e o médico falou que só tenho duas horas de vida. Resolvi sair pra dar uma volta, o cemitério da próxima cidade é mais bonito.

A jurada de morte e o enfartado prosseguem em alta velocidade pela estrada, enquanto conversam sobre a vida.

Escrito por BSBS às 19h27
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Já tinha gostado do filme. E, cada vez que penso, gosto um pouco mais. Agora descobri que essa moça aí, atriz que faz a personagem principal de "Eu, Você e Todos os Outros", é também a diretora e roteirista, Miranda July. E a boa notícia é que achamos um torrent do filme e estamos baixando. Se não quiserem ver no cinema, podemos fazer uma sessão casinha branca.



Escrito por BSBS às 18h52
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O meu jardim é pequeno e fica lá nos fundos. O sol entra pelas frestas. Lá antes não tinha terra, mas eu enchi cada vaso até o topo.

Às vezes tenho vontade de enfiar as mãos na terra. Ficar um bom tempo assim, sentindo e pensando. A terra cai no chão e sai colorindo o azulejo branco. Continuo mexendo as mãos lá dentro, olhando para aquele marrom escuro que de repente se desmembra em verde, vermelho, alaranjado, amarelo.

Eu gosto também de sentar no chão, ainda que me suje. E olhar fixo para um pedaço de alguma planta, para flagrar o momento em que ela vai se mexer. Quando eu era pequena, juro que vi uma folha crescer um pouquinho.

De repente, antes que eu mesma perceba, parei tudo e fui pro jardim. Não sei como eu cheguei ali, geralmente foi por uma deculpa que dei a mim mesma, do tipo: vou beber água e já volto.

Quando me dou conta, acho engraçado. A verdade é que estou cada vez mais viciada no meu jardim. Acho que é porque ali as coisas integram um outro tempo. E me sinto especial quando consigo participar daquilo. Chegando bem perto, dá para sentir vários cheiros. Ali dá para brincar de respirar diferente, olhar diferente, sentir diferente, distinguir o que há de muito, muito, muito sutil, quase imperceptível.

Escrito por BS às 12h55
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