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 Todo mundo tem o seus rituais particulares, mesmo que não os admita. De minha parte, existe uma coisa completamente indispensável para inaugurar o meu dia: um cafezão!
Independente da hora em que eu fui dormir ou da hora em que acordei, eu não sou ninguém antes dele.
Agora no inverno, este hábito tomou lugar entre os principais prazeres do meu dia. Tão maravilhoso quanto tomar água de coco gelada depois da ginástica e quase tão bom quanto enfiar debaixo do edredon para assistir filme à noite.
Depois que o café está pronto, coloco numa caneca bem grande e sento na mesa da cozinha para beber devagarzinho. A mesa de pedra é gelada mas eu não me importo, já que o café está quentíssimo. É até um contraste legal. Gosto de ficar curtindo o bafo úmido, quente e cheiroso que sai da caneca.
Tenho que confessar que não tenho certeza se neste momento eu já estou completamente acordada. Acho que é um momento de transição, em que meu nível de consciência geralmente está oscilando entre Netuno e Plutão. Várias pistas me levam a crer nisto:
1) Enquanto tomo café, faço um planejamento fantástico de todo o meu dia, o qual nunca consigo lembrar poucas horas depois. 2) Invariavelmente, influenciada por uma lenda sei lá de onde, fico tentando adivinhar meu futuro através das manchas que o café vai deixando na caneca. Tiro conclusões completamente sem sentido e vou tentando remediá-las diluindo um pouco de Molico para mudar a cor do café. 3)Minhas camisolas possuem sempre alguma mancha de café.
Portanto, nunca ouse me interromper durante momento tão sagrado, tão crucial. Se tentar conversar comigo, corre o risco de receber um “anhan” distante ou no máximo uma resposta completamente sem sentido. E aviso: se sua insistência for maior que seu medo, será alvo inevitável de um ataque de ira e loucura.
Escrito por BSBS às 01h38
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Contrate os Hell´s Angels Para Sua Segurança

Tava vendo o documentário Gimme Shelter, de 1970, sobre a turnê que os Rolling Stones fizeram nos EUA durante 1969. O filme começa com uma excelente versão de “Jumpin´ Jack Flash” e tudo leva a crer que é mais um documentário de rock. Todo aquele clima flower power, pessoas nuas, alguns muito loucos e tal.
Mas aí corta-se pra moviola, onde os Stones estão assistindo o material gravado e vendo os primeiros esboços da montagem do filme. Entre os trechos de shows, o diretor mostra para a banda uma gravação de um programa de rádio. Ficamos sabendo que esse documentário foi feito logo depois do trágico show de Altamont, onde nasceram 4 pessoas e morreram outras quatro. Nesse show, os contratados para fazer a segurança foram... eles mesmos, os Hell´s Angels, trupe de motoqueiros conhecidos mundialmente - talvez a partir desse episódio - por sua tolerância, gentileza e delicadeza.
Um trecho do depoimento de um Hell´s Angel para o referido programa de rádio: Eu ia ficar ali sentado, na beirada do palco, e só isso. Mas aí os caras começaram a mexer nas nossas motos. E ninguém vai chutar minha moto. Quando você vê alguém chutando a coisa que você mais gosta no mundo, você sabe que tem que pegá-los. E, quer saber? Nós pegamos eles..
O restante do documentário concentra-se no show de Altamont, que ia bem até que os Stones começaram a tocar Simpathy for the Devil, quando o pau começou a quebrar. Por diversas vezes Mick Jagger interrompe o show, tenta acalmar as pessoas e vai tudo ficando mais tenso. A queda de energia é brutal na banda, eles tentam tocar outras músicas mas as interrompem no meio, Mick Jagger chama médicos, pede calma, tenta cantar outra música mas fica olhando o que acontece no público ao invés de dançar, esquece-se de cantar alguns trechos das letras.
O filme termina com os Stones, na Moviola, vendo uma seqüência que mostra os Angels assassinando uma pessoa a pontapés e facadas no meio do público. Depois há ainda algumas cenas de pessoas chorando e um corpo sendo preparado para transporte. Os músicos perplexos não conseguem nem comentar a cena, assistem a tudo, pedem pro diretor voltar o rolo, assistem de novo, vêem uma arma na mão de uma pessoa no público e um Angel atacando-o com uma faca. It´s Horrible, diz Mick Jagger.
O filme é meio um documento, talvez o mais incisivo possível, do fim de toda uma geração, da morte do sonho dos anos 60, Paz e Amor, Flower Power, Hippies, tudo isso. A barra pesou. Nos créditos entra “Gimme Shelter” , sobre imagens das pessoas deixando o local do show: Yes, the storm is threatening my very life today / If I don´t get some shelter, I´m going to fade away / War, children, it´s just a shot away , it´s just a shot away / Rape, murder , it´s just a shot away...
Gimme Shelter – 1970
Dir: Albert Maysles, David Maysles, Charlotte Zwerin
Escrito por BSBS às 19h37
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Godard Estava Errado?

Muitas vezes sou acusado de fazer pose, de gostar de determinadas coisas, principalmente em cinema e literatura, só porquê é “chique” gostar, pra dar uma de entendido. E, na verdade, tenho uma relação muito visceral com obras de arte. Simplesmente não conseguiria sustentar uma posição falsa frente a um autor só pra causar certa impressão ou manter uma aparência.
Mas tem uma coisa que eu faço, e a partir daqui saio da defesa pro ataque. Quando vejo um filme ou leio um livro, recomendado pela crítica, considerado importante na história, com o qual não consigo me relacionar, não tenho como primeira atitude desconsiderar a obra. Coloco-me em dúvida também.
Considero uma soberba incompreensível simplesmente desprezar um autor ou uma obra que tem um reconhecimento mundial apenas porque eu não gostei na primeira vez que tentei. Já tentei ler Ulisses umas duas vezes, não consegui. Vamos queimar o Ulisses? É lixo? Não vale nada?
Muitas obras necessitam de background mesmo, você tem que conhecer muita literatura para ler um Guimarães Rosa ou um Borges, tem que conhecer cinema a fundo pra ver um Godard ou mesmo um Glauber Rocha, um Sganzerla. E tem outro tipo de obra que exige, além disso, uma boa vontade, uma atitude de decifrar a linguagem, de buscar os significados e de entender a maneira como estes estão sendo transmitidos.
Mas por quê? Por quê ler os clássicos se podemos ficar nos Best Sellers? Por quê ver cinema experimental se podemos ficar com as receitas de bolo de Hollywood? Porque é recompensante. Porque podemos encontrar muitas idéias e beleza escondidas nessas obras “difíceis”. Mas pra isso é preciso paciência. E humildade.
Escrito por BSBS às 13h25
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Thomas Mann

Um autor que passei a conhecer melhor neste ano foi Thomas Mann. Antes disso, tinha lido apenas o ótimo "Morte em Veneza", motivado pelo filme, também muito bom, do Visconti. Mas neste ano enfrentei três grandes livros, daqueles que ficam em pé sem apoio: A Montanha Mágica, Confissões do Impostor Felix Krull e Doutor Fausto.
Quando se ouve falar de Mann, o primeiro livro citado é A Montanha Mágica, considerado seu melhor trabalho e um dos grandes livros já escritos. E o livro realmente é impressionante. Conta a história de Hans Castorp, que vai visitar um primo internado numa estação de tratamento de tuberculose, numa montanha altíssima, na Suíça, próximo a Davos. Acaba ficando doente e, de hóspede, passa a paciente, vivendo vários anos na clínica. Lá convive com representantes de linhas de pensamento em vigência na Europa daquele tempo e representantes étnicos de várias partes: Russos, Alemães, Italianos, etc. Há um grande debate entre um italiano humanista e um Jesuíta do qual Hans aos poucos vai se inteirando e começando a dar suas opiniões. Também na montanha mágica conhece o amor, a morte e envolve-se até com rituais místicos. Uma impressionante experiência que modifica totalmente Castorp, que é outra pessoa quando sai de lá e acaba encontrando outro mundo do lado de fora, numa europa tomada por guerras e sofrimento.
Feliz Krull é um livro mais leve, uma análise de um personagem que pratica uma espécie de escalada social, usando de sua simpatia e beleza para conquistar as pessoas em seu redor. Felix não segue as regras, subverte a ordem social e acaba por expor um certo vazio nas relações sociais que se estabelecem. Um livro bem mais fácil de ler, porém bem menos recompensante.
Finalmente, Doutor Fausto. Um livro bem complicado, que trata da vida de um compositor de música erudita que vende a alma ao diabo. O preço é tempo para concluir sua obra: 24 anos. E, além de ter a alma do compositor, o Diabo o impede , durante a vida terrena, de amar. É um livro difícil de ler, por exemplo, por tratar bem detalhadamente de técnicas de composição, teoria musical pesada mesmo. Toda a primeira parte do livro é o caminho do compositor Adrian até chegar a uma técnica original, diferente de tudo que foi feito anten na música, que é o dodecafonismo , tomado emprestado de Schoenberg. Então, se você não tem muito conhecimento sobre música, fica difícil de acompanhar. Mas o livro também aprofunda-se bastante em teologia e faz todo um paralelo da vida de Adrian com o momento em que a história vai sendo narrada, depois da morte do compositor: ascenção e queda do nazismo na Alemanha. Há dois momentos especialmente fortes, que é o longo diálogo de Adrian e o diabo, que parece ocorrer num sonho e a cena em que reúne os amigos para mostrar sua composição final, quando os 24 anos combinados estão para se esgotar. De arrepiar.
Então, pela ordem dos que mais gostei: A Montanha Mágica, Doutor Fausto, Morte em Veneza, Confissões do Impostor Felix Krull.
Escrito por BSBS às 14h42
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O Efeito Neutrox
 No dia a dia, meu sentido menos aguçado é o olfato. Não consigo diferenciar muito os cheiros, a não ser em casos extremos, como por exemplo: alguém esqueceu o gás ligado; a geladeira está entupida de mexericas; o vidro de perfume vazou da mala; alguém resolveu colocar fogo na casa da frente...
Porém, no que se refere ao passado, a coisa é diferente. Um dia, enquanto percorria os olhos pelas prateleiras de uma farmácia, algo me chamou a atenção. Lá estava ele, esquecido, sozinho, porém com toda a sua dignidade: um vidro de Neutrox! Estranhei quando vi, já que sabia sobre versões novas do produto, com embalagens diferentes, que não me diziam nada. Mas em pé, no meio da prateleira do meio, estava ele, redondinho e alto, com a tampa vermelha, tal qual ele sempre foi durante toda a minha infância. Fiquei tão surpresa que não resisti: peguei a embalagem, abri e levei ao nariz. Sim, era ele!
Senti aquele cheiro e instantaneamente lembrei exatamente de tudo. Da sensação de morar numa casa com piscina no interior, brincar na piscina, estudar na piscina, machucar na piscina, chorar na piscina, dormir na piscina, comer na piscina, contar segredos na piscina, tomar chuva na piscina, etc, etc, etc... e depois... tchan tchan tchan tchan... tomar banho e passar Neutrox no cabelo!
E não é exagero dizer que não foram só lembranças: enquanto cheirava o Neutrox, aquela sensação voltou com tanta força que é como se ela nunca tivesse ido embora. Fiquei paralizada no meio da farmácia, vivendo em outra dimensão. E este meu estado nostálgico e catatônico ganhou o célebre apelido de “Efeito Neutrox”.
O Efeito Neutrox tem um poder arrebatador e pode se aplicar a qualquer outro cheiro que teve muita importância para mim. Sentir um cheiro do passado é muito diferente de ver uma foto, por exemplo. Quando olho para a foto, penso: “Olha como eu era antes!” Já no caso do olfato, eu não sou uma observadora de fora. Eu vivencio tudo de novo. O Efeito Neutrox é a máquina do tempo.
Escrito por BSBS às 12h41
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